INICIO PARA A AÇÃO
MEDIDAS URGENTES
Saímos à rua deixando a um lado o isolamento das nossas lutas parciais e individuais e passamos a afrontá-las conjuntamente, com entusiasmo colectivo. Com isto, irrompe a ideia de que é possível uma mudança real da nossa existência em comum, que hoje sentimos ameaçada. Fomos até a praça para nos ouvir, construir propostas e procurar soluções, sem intermediários que falem por nos: tomamos a palavra e mediante a auto organização.
Um grito de raiva e indignação nos une perante a precarização e o deterioro das condições de vida em todos os âmbitos, causadas pelo capitalismo, que já é incapaz de resolver as suas contradições internas para além de incrementar seu potencial de destruição
A nossa indignação surge não só perante a não-vontade da classe política de exercer sua função de serviço público para o povo, se não perante a sua crescente submissão ao poder da banca e ao capital especulativo, favorecendo os monopólios e promovendo privatizações de serviços públicos.
A situação de crise econômica acentua os níveis de exclusão e desemprego pela reforma laboral, os cortes e o empioramento das pensões.
O escândalo perante tal situação, que se não mudar conduz irremediavelmente à barbárie, empurra-nos a unir-nos ao resto das forças e a fazer nossas as reivindicações das suas lutas (lutas operárias, estudantis, de gênero, de origem, colectivos alter-mundistas, de autodeterminação dos povos…).
Esta situação limite que impede a nossa subsistência, obriga-nos a exigir e conquistar as seguintes medidas urgentes:
MEDIDAS URGENTES PARA A AÇÃO
Assembleia Geral · 12 de Junho de 2011
Primeiras Medidas para uma Vida Digna
1. Laboral
2. Habitação
3. Sistema bancário y financeiro
4. Fiscalidade
5. Serviços públicos
6. Meio ambiente
7. Participação comunitária no funcionamento das instituições públicas
8. Eliminação de privilégios de políticos, sindicalistas e representantes religiosos
1. Laboral
• Retirada do pacote de cortes em pensões, subsídios, ajudas sociais e salários dos funcionários. Na Catalunha, retirada da lei Ómnibus.
• Subsidio por desemprego suficiente para cobrir as necessidades dos desempregados.
• Nem mais uma demissão coletiva (contra os expedientes de regulação de emprego).
• Converter os trabalhos temporais em fixos ou fixos descontínuos. Propomos um único contrato indefinido, com um salario não inferior a 1.200-‐1.300 euros (tal e como diz a Carta social europeia que o salario deve corresponder-se com o 60% da renda Espanhola).
• Em caso de demissão improcedente, o trabalhador será quem decida sobre sua readmissão, tal e como constava no estatuto dos trabalhadores antes da reforma laboral do ano 94.
• Aumento das indemnizações por demissão a 45 dias por ano trabalhado (com um teto de 42 mensalidades).
• Reconhecimento do trabalho doméstico, de cuidado e atenção. Igualamento da retribuição laboral sem discriminação de gênero, origem ou diversidade funcional.
• Derogação da reforma de pensões e da reforma laboral.
• Derogação da lei de estrangeiros e fecho dos centros de internamento.
• Fecho das empresas de trabalho temporário.
• Redução da jornada laboral a 30 horas sem redução salarial. Esta medida fomenta que possa haver um 4rto turno, favorece a contratação baixando assim o nº de desempregados/as e favorece também a conciliação da vida laboral e pessoal.
• Avançar a idade da aposentadoria aos 60.
• Renda mínima de 1.000 € por pessoa que garanta uma subsistência digna.
2. Habitação
• Nem mais um um despejo.
Transformação das hipotecas: anulação dos despejos e conversão em aluguer no caso de não poder afrontar o pagamento por situação de desemprego.
• Redução da divida hipotecaria em proporção à taxação objetiva da habitação, por desvalorização do mercado.
• Preço máximo do 10% das rendas destinadas ao pagamento do aluguél/habitação.
3. Sistema bancário e financeiro
• Derogação do processo de conversão das caixas de aforro em bancos.
• Criação de uma banca pública com controlo comunitário efetivo, a partir da nacionalização das Instituições financeiras que pediram ajudas públicas e que dirija o crédito com critérios sociais. Ao mesmo tempo, estabelecer um nível mínimo de reservas obrigatório, consideravelmente mais elevado.
• Devolução dos resgates aportados pelo estado às entidades financeiras, não nacionalizadas.
• Fazer uma auditoria para averiguar os diferentes níveis de legitimidade da Divida Publica e Privada do Estado espanhol. Aquela que seja ilegitima não será paga.
4. Fiscalidade
• Pôr em prática uma Reforma Fiscal Progressiva, reestruturando a Imposição Direta e Indireta, gravar os bens de luxo e reduzir os impostos aos Bens Básicos, recuperar o Imposto de Sucessão e o de Patrimônio, aumentar o IRPF ás rendas altas, estabelecer um Imposto de Sociedades Progressivo e reestruturar os Impostos e Preços Públicos (IPC) com critérios sociais.
• Aumento radical dos impostos sobre as grandes fortunas e os benefícios bancários.
• Controlo comunitário sobre o fraude fiscal.
• Estabelecimento de uma taxa sobre transações financeiras não produtivas (taxa Tobin) e homogeneização do marco legal que incida efetivamente no controlo sobre o desvio de fundos a paraísos fiscais.
5. Serviços públicos
Saúde pública
• Aumento da contratação de pessoal sanitário e desprivatização do sistema para garantir una atenção sanitária de qualidade.
• Eliminação dos cortes previstos.
• Aplicação e aprofundamento da Lei de dependência. Fomentar e aplicar o Desenho para Todos o Desenho Universal, como única forma de garantir a acessibilidade física e de comunicação a todas as pessoas, incluídas as pessoas com diversidade funcional. (Desenvolver e cumprir os requerimentos e artigos que estabelece a Convenção dos Direitos Humanos de la ONU de 2006 – Ratificada por Espanha o 3/5/08, que no seu Art. 1 fala de “Promover, proteger e assegurar desfrute pleno e em condições de igualdade de todos os Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais, por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito da sua dignidade inerente).
• Fomentar e aplicar o Desenho para Todos, o Desenho Universal, como única forma de garantir a acessibilidade física e de comunicação a todas las pessoas, incluídas as personas com diversidade funcional.
• Nacionalização da Industria Farmacêutica.
Educação
• Redistribuição e aumento dos recursos econômicos e humanos, destinados integramente todos los recursos à educação pública, abolindo progressivamente os concertos educativos, para garantir um ensino de qualidade e laico. Concerto é igual a financiamento público mais privado – parando os cortes e assegurando a plena participação dos agentes educativos neste processo.
• Matrícula universitária gratuita, para as rendas inferiores a 1000 euros por unidade pessoal.
• Que todo o processo educativo não dependa de critérios partidistas e econômicos, se não de profissionais da educação e de toda a comunidade educativa (Definição de comunidade educativa, inclusiva e transversal). Centrar todos os processos nas pessoas e suas necessidades e não somente no currículo e nos seus resultados.
• Formar de forma permanente os agentes educativos para garantir uma educação de qualidade e adaptada ás necessidades das pessoas.
• Que a educação pública não reproduza diferenças sociais que segreguem as pessoas em função de sua procedência sociocultural e pessoas com diversidade funcional, favorecendo assim uma educação inclusiva, que permita educar desde a diversidade e na diversidade.
• Em contra da iniciativa Estrategia Universitária 2015 (EU2015), das novas medidas de reforma do sistema universitário do estado espanhol e do modelo de governo e privatização que promovem.
• Modificação de critérios na composição dos Conselhos Sociais das universidades, para garantir o controlo comunitário e a função pública.
•Atribuição de bolsas que permitam a dedicação exclusiva ao estudo (que cubram o conjunto de despesas de vivenda e alimentação).
• Eliminação do processo de profissionalização dos órgãos diretivos do Ensino Primário e Secundário.
• Em contra da aplicação de controlos de qualidade ISO (basados na direção por objetivos com critérios empresariais) na organização dos centros educativos e estabelecimento de processos de melhora pedagógica por parte da Comunidade Educativa.
Cultura
• Revisão radical do conceito de industria e empresa cultural. Por uma cultura de acesso libre, plural não vinculada ao estricto lucro.
• Derogação da lei municipal de civismo y re-escritura de usos culturais do espaço público, ampliada a todo tipo de locais.
• Postergar um modelo cultural alternativo ao atual basado na imaturidade, consumo, violência e utilização comercial da imagem do sexo.
• Intensificar a educação nas escolas em base ao desenvolvimento da imaginação, face ao modelo atual, basado no consumo, a “disneyficação” e a representação da violência e o sexo publicitário.
• Os trabalhadores da Cultura devem gerir os recursos públicos.
• Priorizar as práticas culturais minoritárias face ás políticas de espetáculo para as massas.
Ciência, Investigação e Tecnologia
• Controlo comunitário e modificação de critérios para a aprovação dos orçamentos destinados a I + D, aumentando las partidas para instituições públicas.
• Eliminação da partida destinada a investigação militar, engrossando a de investigação civil.
• Exigência do cumprimento do Estatuto do Pessoal Investigador em Formação.
Formação
• É necessário fomentar uma formação integral, transversal e multidisciplinar das pessoas que lhes permita tomar consciência da sua situação pessoal com relação ao resto da sociedade, o sistema e as situações de injustiça social crônica e estrutural.
• Ateneus enciclopédicos populares, abertos à sociedade em cada bairro.
• Bibliotecas autogestionadas pelos vizinhos no bairro.
• Abolição das leis que regulam a propriedade privada intelectual.
Meios de Comunicação e Telecomunicações
• Controlo comunitário e potenciação dos Meios de Comunicação Públicos, fazendo efetivos os mecanismos de aceso público e generalização dos Conselhos de Informativos e Programas.
• Controlo comunitário das infraestruturas de comunicação da informação e dos dados pessoais.
• Transparência e libre aceso à informação pública.
• Proibição efetiva da comercialização e da cessão de dados pessoais.
• Eliminação de sistemas de videovigilância, geo-localização, scanners corporais e BI digital.
• Em contra da lei Sinde.
Justiça
• Dignificação das condições de vida dos centros penitenciários. Eliminação da pena de prisão para as penas multas e do regime de ficheiros de Internos de Especial.
Seguimento (FIES) e dos módulos de respeito.
• Eliminação do amontoamento e redução em profundidade das vagas nas prisões.
• Estabelecimento de mecanismos vinculantes de prevenção da tortura, visualização, reconhecimento e defesa das vítimas. Castigo aos culpáveis de torturas. Eliminação dos indultos para os sentenciados por torturas.
• Dissolução da Audiência Nacional (antigo Tribunal de Ordem Público) e independência efetiva do Poder Judicial.
• Reformulação da Lei de Memoria Histórica.
• Regularização de todas as pessoas estrangeiras.
• Renovação das licenças de trabalho e obtenção da residencia sem necessidade de contrato.
Interior y Defensa
• Regresso imediato das tropas do exército espanhol, destinadas em território estrangeiro, independentemente da natureza da sua missão, assim como o fim de toda cooperação bélica com a NATO.
• Diminuição radical da despesa militar, policial e da burocracia.
• Desmantelamento da industria armamentista.
• Eliminação do arsenal atômico e fim de extração e processamento de material radiativo para produção de armamento atômico.
• Desmilitarização da Guardia Civil e eliminação dos Corpos Repressivos, anti distúrbios e forças de choque militares.
Transporte
• Redução drástica do preço do Transporte Público.
• Melhorar e potenciar o transporte público e liberar as ruas de carros privados progressivamente.
Empresas públicas
• Recuperação e aumento dos serviços públicos e seus orçamentos.
• Recuperação das empresas públicas que foram privatizadas.
Políticas econômicas
Criar e facilitar a criação de cooperativas ao serviço da economia local.
6. Meio Ambiente
• Queremos a gestão pública da água, sem animo de lucro e com participação social, e que os lucros se reinvistam na qualidade do serviço. Por tanto, exigimos que a atual gestão privada de Aguas de Barcelona (Grupo Agbar) retorne ás mãos públicas municipais.
• Urgimos a Soberania Alimentaria, o fomento da Agroecologia, a proibição dos Organismos Modificados Geneticamente (Transgênicos), a proibição das patentes sobre as sementes e uma Reforma Agraria que elimine os latifúndios e sua substituição por Bancos de Terras baixo gestão comunitária.
• Reclamamos um plano de choque para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que faça frente ao “pico do petróleo” e a Mudança Climática. O fecho imediato das centrais nucleares, a implementação urgente de energias ecológicas baixo gestão comunitária e a promoção e conscientização acerca do aforro energético.
• Moratória sobre a construção de incineradoras, grandes urbanizações, grandes centros comerciais, centrais térmicas e nucleares e grandes infraestruturas como a quarta cintura, a linha de muito alta tensão e o AVE para permitir um debate real sobre o modelo energético, de movibilidade e de resíduos.
• Exigimos um compromisso real, efetivo e comprovável da redução das emissões de gases de efeito estufa, mais além do Protocolo de Kyoto e a proibição do mercado de emissão.
• Demandamos a aplicação, e criação caso fosse necessário, de leis a nível europeu e estatal que assegurem a conservação do Meio Marinho, tais como a Diretiva Marco da Água, uma correta Política Pesqueira Comum e a lei de Costas.
• Reclamamos uma Planificação do Território que minimize o transporte privado e de mercadorias, que assegure a biodiversidade e a funcionalidade dos ecossistemas.
• Queremos o estabelecimento de uma gestão efetiva e sustentável dos resíduos e dos agentes contaminantes e a exigência de um relatório de viabilidade ecológica de qualquer atividade econômica, que considere as imissões diretas e indiretas. Também o endurecimento das sanções econômicas e penais das atividades mais contaminantes que as façam inviáveis e a restauração, a cargo do infractor, dos danos ocasionados.
• Exigimos a obrigatoriedade dum etiquetado de todo produto de consumo que incorpore sua “pegada ecológica”, o consumo energético, as imissões de CO2 e outros contaminantes, os critérios de sustentabilidade e proximidade seguidos na sua produção e distribuição.
7. Participação comunitária no funcionamento das instituições públicas
• Não ao sistema eleitoral atual, com igualdade nos requisitos para se apresentar e os meios a utilizar nas campanhas. Distribuição equitativa dos tempos de exposição de propostas políticas nos meios de comunicação, sem ter em conta resultados anteriores ou por ser a primeira vez que se apresentam (incluindo a promoção do voto em branco, ou abstenção).
• Referendos obrigatórios e vinculantes.
• Reconhecimento do direito de autodeterminação de todos os povos.
8 - Eliminação de privilégios de políticos, sindicalistas e representantes religiosos.
• Recorte drástico do salário dos políticos, equiparando ao salário da media nacional, ou mantendo o seu salário profissional anterior a ocupar o cargo público. Transparência patrimonial. Obrigatoriedade de declaração pública do patrimônio antes e depois de cada legislatura.
• Eliminação dos privilégios no pagamento de impostos, dietas, anos de desconto e reformas, asim como da superior reforma máxima eliminando a imunidade associada ao cargo. Imprescritibilidade dos delitos de corrupção e demissão imediata dos cargos corruptos e redução aos mínimos imprescindíveis dos cargos de libre designação.
• Derogação da Concordata com a Igreja católica.
Epílogo
O controlo comunitário, a imagem do modo auto-organizativo no qual se enquadra o movimento dos indignados e a acampadabcn, deve-se converter na ferramenta para transformar o sistema econômico, político e social visto que é a única forma fiável de controlar a debilidade dos representantes municipais e parlamentários perante o descaro das élites no poder.
Além disso, dito controlo comunitário deve-se desenvolver para garantir o desdobramento de processos de auto-organização em assembleias e comissões, vilas e bairros, assim como em centros de trabalho e de estudo como base e plataforma da sociedade futura.
Finalmente, remarcar que estas medidas urgentes para a ação são acima de tudo condições imprescindíveis para fazer frente à atual dinâmica desbocada do capitalismo, e impulsar uma mudança radical do mundo que nos precede e defender-nos ante aprofundamento da miséria e a escravidão que padecemos.
Acampadabcn